Acima da sua cabeça existe um outro “continente” de vida que a ciência só agora está começando a mapear.
Imagine uma floresta tão grande e tão antiga que, bem acima do chão onde a gente anda, existe um mundo inteiro de criaturas que quase ninguém ainda conhece. Não é ficção. É a realidade do dossel da Amazônia — a camada formada pelas copas das árvores, que pode chegar a 30–40 metros de altura.
Durante décadas a maioria dos estudos de insetos era feita no solo ou perto dele. Faz sentido: é mais fácil. Mas biólogos brasileiros, liderados por pesquisadores como Dalton de Souza Amorim (USP) e José Albertino Rafael (INPA), estão mostrando que isso deixava de fora a maior parte da história. Projetos como o BioInsecta (FAPESP) e o BioDossel (INCT/CNPq) estão subindo torres, instalando armadilhas em cascata e coletando insetos em diferentes alturas.
Os resultados preliminares são impressionantes. Mais de 60% das espécies de insetos encontradas acima de 8 metros de altura não aparecem no solo. Em algumas coletas, essa proporção chegou perto de 70%. Ou seja: a fauna que vive no dossel é, em grande parte, diferente da fauna do chão.
Em uma única área de estudo (a Reserva ZF2, perto de Manaus), os pesquisadores já identificaram milhares de espécies distintas. Estimativas apontam que uma região relativamente pequena da Amazônia Central pode abrigar dezenas de milhares de espécies de insetos — muitas delas ainda sem nome científico. Amorim e equipe estimam que 90% a 98% da fauna de insetos da Amazônia ainda é desconhecida.
Insetos não são só “bichos pequenos”. Eles são a base de quase tudo:
Quando a floresta é derrubada ou degradada, a gente não perde só árvores. Perde também esse universo vertical de vida que depende da estrutura completa da floresta — do solo até o topo.
Os projetos estão coletando milhões de exemplares e sequenciando o DNA de centenas de milhares deles. A ideia é criar o primeiro inventário realmente vertical e genético da fauna de insetos da Amazônia. Cada nova espécie descrita é um pedaço de um quebra-cabeça que a humanidade ainda não terminou de montar.
Da próxima vez que você olhar uma foto da Amazônia, olhe um pouco mais para cima. Ali, entre as folhas e os galhos, existe um continente de vida que a ciência ainda está descobrindo. E cada hectare preservado é uma chance a mais de conhecer (e proteger) essa biodiversidade antes que ela suma sem nome.
Artigo original para o BioAdventure — baseado em pesquisas recentes dos projetos BioInsecta e BioDossel.